Viver no Capão - utopia ou distopia?
- Milena de Azevedo
- 15 de jul. de 2021
- 5 min de leitura
Atualizado: 15 de jul. de 2021

Estamos de volta ao Vale desde o início da pandemia. Nós e muitos habitantes das capitais que tinham acesso a outras possibilidades de moradia, principalmente fora do circuito das grandes cidades, buscamos refúgio em espaços mais imersos na natureza e com mais liberdade de circulação diante das medidas de isolamento impostas pela pandemia da covid-19, que somente aportou em terras tupiniquins a partir de março de 2020.
Para muitos, foi a chance de viver em um local mais natural e que possibilita a participação em ações comunitárias ou projetos colaborativos relacionados ao enfrentamento dos desafios presentes no território. Desafios como o acesso à educação, a coleta seletiva de lixo, os mutirões para construção de espaços de uso comunitário, entre outras ações oportuniza a quem não estava habituado a exercer essas atividades nas suas cidades uma sensação de ação política efetiva, de estar efetivamente contribuindo para a transformação da comunidade onde vive.
Trata-se de uma impressão parcialmente verdadeira. De fato, existe uma ampla adesão a movimentos, mutirões e coletivos, principalmente imediatamente seguido à chegada no Vale, e gradativamente a participação e atuação nos mesmos coletivos vai perdendo apoio à medida que a estada aqui se prolonga, embora para muitos moradores principalmente aqueles que chegaram há mais de 20 anos, a luta pela melhoria das condições de vida no vale seja uma constante.
Recentemente o movimento EDUCAPÃO conseguiu reformar a antiga casa do Rufino e o ensino médio do Vale passou a contar com uma sede própria, e não mais funcionar como um anexo da Escola municipal. Essas e outras conquistas da comunidade apontam para a importância dos processos comunitários e associativos do Vale e denotam que esforços bem direcionados, pragmáticos e com foco geram transformações reais e podem superar alguns desafios até então considerados intransponíveis.

A organização comunitária conseguirá dar conta de todos os desafios presentes no Vale? Provavelmente não, a desativação de alguns jiraus não resolveu o problema do acúmulo transbordante de lixo por todos os cantos do Vale, e nos mostra que o caminho é longo e o passo é lento para alguns desafios históricos e ainda não superados e que à medida que aumenta o fluxo populacional de pessoas movidas por diferenciadas expectativas com relação ao viver aqui, esses diálogos e entendimentos vão se tornando cada vez mais incompreensíveis.
O Vale ainda é um lugar pequeno pra se viver e esse espaço, circunscrito pelo Parque Nacional da Chapada Diamantina, recebe novos moradores e "demoradores", que é como aqui são chamados aqueles que vêm de passagem e vão ficando, ficando.., todos os dias! . Na última pesquisa realizada pela Secretaria de Desenvolvimento Sustentável da Prefeitura de Palmeiras, entre os anos de 2015 e 2016, constatou-se que a população do Vale, na época em torno de 2.000 habitantes, dobrava durante os maiores eventos. Outra, de 2013, apurou a presença no Capão de habitantes de 51 nacionalidades distintas, condição essa que provavelmente nenhum outro povoado da zona rural do pais possui. Obviamente que essas qualidades não oportunizam apenas potencias para o lugar mais promovem desafios também.
É visível o crescente processo de gentrificação do Vale, com a população original vendendo gradativamente as suas terras para pessoas recém-chegadas de todos os cantos; gente modificando os seus hábitos de viver e produzir para atender as demandas que essas novas populações impõem ao território como oportunidade de acesso a trabalho e renda. um simples dado para refletirmos sobre essas novas configurações é o quantitativo de motos que circulam diariamente plea estrada Palmeiras/Capão, um dia desses, de brincadeira eu contei somente no meu trajeto de retorno no final da tarde 75 motos em 40 minutos enquanto voltava pra casa.

A vocação, antes eminentemente rural e de lida com a terra, vai sendo paulatinamente substituída pelo comercio de serviços voltados para o turismo ambiental e pelas áreas culturais. O problema é quem nem todo nativo tinha ou tem terra, à medida que o preço do metro quadrado aumenta, os conflitos pela propriedade ou usufruto da mesma vão se torna ainda mais complexos. Uma outra questão muito importante é a ausência do Estado ou de uma autoridade local legitima e construída de forma democrática para a resolução dos conflitos, pois quando os mesmos acontecem os envolvidos se sentem impotentes e sem ter como buscar auxílio ou terem um espaço de acolhimento local, obrigando pessoas em situação de vulnerabilidades a se deslocarem para sede do município ou até mesmo Seabra que fica a mais 50 km de distância.
Nas áreas de saúde, educação, coleta de lixo, segurança pública, iluminação, acesso à rede de esgoto e água, essas situações se multiplicam e expressam no encaminhamento de seus desafios a multiplicidade facetada dos recortes populacionais presentes hoje no Vale: todo mundo tem uma opinião diferente a dar sobre como resolver os problemas, a gestão municipal, geralmente é indiferente, inexistente ou parcial na resolução dos problemas, já que os prefeitos se alternam no poder desde que o mundo e mundo por aqui.

Assim seguimos caminhando, entre irmandades possíveis, belezas naturais indescritíveis e distopias sociais produzidas pela narrativa fictícia do lugar paradisíaco e único na terra, portador de cristais especiais e curativos entre outras coisitas mais. Com certeza muitos dos que chegam e aportam por aqui insistem nesse olhar por meio de lentes cor de rosa, varrendo os problemas visivelmente crônicos para debaixo do tapete da alma.
Com certeza, o Vale sofreu algumas perdas irreparáveis: o coral do Capão, o Bloco da União e a saída de cena de figuras importantes que contribuíam de forma muito robusta para a Escola Comunitária do Brilho do Cristal (somente quem viu as apresentações da escola durante a gestão de Marta Simões e a colaboração artística e musical de Ari Vinicius irá entender do que estou falando) entre muitas outras perdas, a mais profunda foi a passagem de Seu Dozinho, que na minha opinião era um elo generoso entre os nativos e os alternativos, cuja receptividade era pura e única a essa mistura em ebulição que se tornou o Vale. Talvez a sua passagem tenha, de fato, como ouvi de alguns amigos muito próximos, marcado o fim de uma era no Vale. Uma era de utopias, de convivência mais cordial e pacífica na comunidade, de um ritmo mais devagar e silencioso na vida, de uma vida que transcorria mais entre ruídos de pássaros e cachoeiras, do que de motos e caminhões. Uma utopia de um tempo que refletia a natureza da qualidade da escolha e do desejo de estar aqui.

Talvez o dever de casa daqui seja o mesmo de qualquer lugar: desviar e aprofundar o olhar para dentro e para o espelho, e começar por aí!
Esse projeto tem o apoio financeiro da prefeitura de Palmeiras através da Secretaria de Educação, Cultura e Esportes via Lei Aldir Blanc, direcionada pela Secretaria Especial da Cultura do Ministério do Turismo, governo federal.
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