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Tempo, entro num acordo contigo

  • Milena Velloso
  • 2 de jan. de 2016
  • 4 min de leitura

Exatos 12 meses se passaram desde que viemos pra cá. Sempre que falamos sobre essa nossa mudança, meu filho mais velho, Lu, me diz "Mãe, você fala de um jeito que parece que viemos pro Iraque”.

Por que ele pensa em Iraque em vez de Himalaia é algo que me escapa à compreensão, muito provavelmente devido aos 4 meses que moramos acampados durante a obra da casa e a nosso pequeno cenário lembrava muito mais uma operação de guerra do que um paraíso de vida selvagem.

Ainda hoje me perguntaram se estou feliz aqui, se a vida está boa. Uma pergunta que ouço com certa frequência dos amigos que deixei em Salvador. Uma pergunta que urge por uma resposta positiva, menos para justificar minhas próprias escolhas e renúncias que para acolher os sonhos de escapismos utópicos de meus interlocutores. Esta genuína curiosidade é movida pela esperança quase idílica da existência de um lugar protegido da insanidade em que se transformou a vida urbana, de um recanto resguardado das garras do Sistema. Receio deixá-los na escuridão, essa resposta é um lugar ainda por ser descoberto.

Este 2015 foi um ano especialmente complicado para nós, os sonhadores. As esperanças que tínhamos enquanto coletividade humana, pelo menos na esfera política do convívio, só não foram todas por água abaixo graças à rapaziada das ocupações das escolas públicas de São Paulo.

Mas até então a sensação era de termos sido transportadas numa máquina do tempo para a Alemanha de 1930 com perseguições e insultos públicos a certos grupos baseados em preconceitos que imaginávamos já erradicados há décadas. Ou mais longe ainda no tempo, para a Idade Média, com os pobres e negros infratores sendo amarrados a postes, apedrejados e linchados, não importando se o crime em questão foi um estupro, um assalto à mão armada ou o furto de uma banana na feira, na pior forma de se fazer justiça com as próprias mãos.

Por aqui a máquina do tempo não nos poupou também. O som da melodia das flautas que ecoava por todo o Vale vem sendo muito rapidamente sufocado pelo ruído das motos, carros, e, mais recentemente, de aviões e helicópteros operados no combate aos incêndios florestais da Chapada Diamantina.

É quando adentramos o universo das redes sociais que nos damos conta desse choque. A experiência é quase de dissociação da vida, parece que existem universos paralelos: um mais restrito, circunscrito aos 7km que separam a Vila do Bomba, e outro do mundo virtual, como se houvesse uma linha imaginária como a do Equador que nos separasse do resto do planeta. Nem pretendo aqui adentrar esses porquês tão complexos.

Não obstante, passados os períodos de invasão de turistas nos feriados - oportunidade em que só abandonamos nossa trincheira para rever os amigos -, as flautas voltarão a ecoar e poderemos realimentar a ilusão de um cotidiano relativamente distante, seguro e preservado dessa loucura da macro-política das urbes, com o nosso doce convívio com amigos locais e nosso trabalho de formiguinha nos espaços onde atuamos, o que nos dá um prazer enorme e muito sentido ao nosso viver aqui. Foi um ano de muitas realizações, embora não necessariamente remunerado. Que venha 2016 pra mudar isso.

E foi assim que seguimos esses 12 meses, dando conta dos muitos problemas locais que afetam diretamente as nossas vidas capônicas: falta de coleta seletiva de lixo, escassez de água, motoqueiros velozes e furiosos, os incêndios florestais, entre outros. Os incêndios, aliás, somente realçavam o abismo entre esses dois universos. Longe de desmerecer o trabalho fundamental e imperiosos dos brigadistas, a verdade é que, salvo alguns raros momentos de pânico, a impressão é de que houve muito mais fogo circulando pelo facebook e pelo whats app que em toda a Chapada.

Receio não conseguir encontrar as palavras exatas que caberiam nos sonhos de cada um que me pergunta sobre a Vida no Vale. Me antecipava dizendo sempre que o ano ainda não tinha acabado, o que me leva agora, no segundo dia de 2016, a refletir sobre qual resposta eu poderia finalmente dar a todos.

A quebra da linearidade na minha trajetória profissional, a imersão total na vida familiar, a multiplicidade de papéis que precisamos assumir devido às inúmeras coletividades que fazemos parte nos impõem uma dissociação da macro-esfera da vida e nos convidam a um mergulho nem sempre confortável em nossa intimidade.

O vale é geograficamente recôndito, as montanhas de ambos os lados e a falta de horizonte fazem com que a energia não se dissipe e fique concentrada. É preciso saber lidar com essa energia que, de tão densa, mais parece matéria. Com certeza um físico xumbrego me descredenciaria agora mesmo por esses pobres argumentos, mas ainda assim eu insistiria em dizer que é assim que percebo o ar, o chão e a vida aqui.

A única resposta que tenho, transcorrido todo esse tempo, é que preciso urgente e pacientemente fazer um acordo com ele e convidá-lo a entrar devargazinho, bem de mansinho em minha vida, minha casa, meus sonhos e minhas ações. Ser meu aliado em todas as questões. É preciso aprender a confiar nesse velho ancião, maior de todos os orixás, que tem suas forças e morada no maior de todos os sentimentos e capacidades humanas: o perdão.

Então essa a minha resposta para todos que já me perguntaram se sou estou feliz aqui: Quase, mas não ainda. Que venha um 2016 em que o perdão seja pensamento e ação presentes e juntamente com o tempo possa operar as transformações e mudanças necessárias para que o movimento da vida se realize no equilíbrio quase perfeito entre lutas e resiliências, "de modo que o meu espírito ganhe o brilho definido e eu espalhe benefícios".


 
 
 

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