Viva São Sebastião, padroeiro do Capão
- Milena Velloso
- 31 de jan. de 2016
- 4 min de leitura
Esse ano tive a honra de participar do Auto de São Sebastião, uma peça teatral encenada ao ar livre. Fiz o papel de umas das mulheres cristãs no primeiro ato e de narradora no terceiro, quando os arqueiros do norte da África chegam para enterrar suas flechas certeiras no peito do condenado.
Tão especial quanto encená-la foi assistir a diretora, roteirista e figurinista Lói Andrade ensaiar com os atores. Uma aula de pura dramaturgia, mas também de vida. Lói, com seus cachos grisalhos, destilava amor: ao Vale, às pessoas, ao seu trabalho e, mais essencial, emanava uma pulsão de vida invejável para quem já tem tantos anos de estrada. Quero envelhecer assim: alegre, vibrante, acreditando na vida e colocando essa força e fé em tudo o que faço.
O Auto reúne elementos da dança, música e folclore local à alegria circense e ao gingado da capoeira para contar a história do chefe da guarda imperial romana condenado por recusar-se a perseguir os cristãos. Com direção musical de Ari Vinicius, produção e cenário de Fabiana Carvalho, participação do Grupo Nóis no Côco, de artistas do Circo do Capão em um elenco de mais de 50 moradores do Vale, o Auto de São Sebastião transforma a saga do santo morto a flechadas em atos de pura alegria e festividade.
A peça, na verdade, mistura elementos da história do Santo cristão com os símbolos e rotinas da vida aqui no Vale, com passagens heroicas da vida do padroeiro costurada aos elementos e problemas locais, como uma grande prosopopeia tragicômica. Quase ao final, o imperador chega à cidade para ouvir os pedidos dos cristãos e aí todos os desafios que nos interpelam ao viver aqui aparecem sob forma de comédia, repleta de simbolismos queixosos.
Houve apenas um ensaio, na verdade apenas uma leitura coletiva de todo o texto e pronto: estávamos supostamente ‘preparados’. Eu estava em pânico, pois nunca havia sequer assistido à peça antes. Enquanto Lói explicava onde cada cena se desenrolava, quem vinha depois de quem, quem entrava pela esquerda, pelo centro ou pela direita, eu não sabia onde era o aqui, muito menos o lá, e tentava formar imagens das pessoas e do roteiro, em uma vã tentava de ordenar ‘o que não tem governo e nem nunca terá’, mas que faz todo sentido por ser caótico, inventivo, orgânico e cuja força e beleza vem justamente de se ser assim.
De sorte que de um ensaio de duas horas antes do início da peça, as preparações duraram pouco mais de uma. O resto foi cantoria, alegria, samba de roda e a farra da prévia da encenação. Exceto para mim, que tensa estava pelas três simplórias falas que ainda teimava em tentar decorar. Só relaxei depois de um gole de cachaça com limão e mel, mas não demorou muito até que minha mente insana atribuísse à ingênua mistura a responsabilidade por haver esquecido todas as falas novamente.
Além de toda ansiedade e expectativa me senti extremamente honrada pelo convite e por ser acolhida por um grupo tão fraterno, talentoso e, porque não dizer ‘quente’. Sim, quente, pois a sensação que temos do acolhimento é mesmo essa: nos sentimos aquecidos pelo abraço do outro. Mal acabamos de chegar e já sentimos que fazemos parte, que somos um pedacinho pequenino do tecido da vida do Vale, e isso nos orgulha e enriquece de uma forma que não tenho nem palavras para expressar.
Além do acolhimento, sinto nesses breves momentos o respaldo e respeito que recebo de pessoas com vidas tão bonitas e cheias de mérito. A cada passo pequenino que damos aqui, sinto que estamos fazendo parte de algo substancialmente importante para todos e não somente para nossas vidas. Aqui me tornei um pouco atriz, dançarina, palhaça, sem deixar de ser o que sempre fui, ou pelo menos me percebi sendo a vida toda.
Enfim aconteceu: saímos do ‘aqui’ fomos por ‘ali’, passamos por ‘acolá’. E depois que aconteceu tudo fez muito sentido e não teria mesmo como dar errado. O Auto de São Sebastião durou pouco mais de uma hora, começou no salão da vila, passou pela praça principal, dirigiu-se ao coreto, correu pelo posto de saúde e encerrou na porta da Igreja, com Dona Anita, uma das nativas mais antigas do Vale, segurando o estandarte do santo cristão. Uma linda roda foi formada e, juntos, autores, atores, produção e plateia cantaram a música do Espírito Santo.
Penso cá com os meus botões como poderia ser diferente (mais bem apoiado financeiramente, mais planejado, mais organizado) e chego à conclusão que se não tivesse sido como foi não seria tão puro, forte, expressivo e autêntico. Eu é que continuo sendo uma aluna principiante nas coisas do Capão, aqui tudo acontece da melhor forma possível e existe uma profunda confiança que tudo irá dar certo e sempre dá, pois a força, beleza e sentido que as pessoas colocam nos seus fazeres brotam de um lugar de muita emoção e muito sonho. Talvez a ‘profissionalização’ e eficiência que tanto buscamos nas nossas vidas sejam a pedra que esmaga totalmente qualquer possibilidade de inventividade e alegria despretensiosa.
Acredito na existência de uma força de criatividade na escassez, talvez as grandes obras e invenções precisem desse espaço do não ter, do não ser, esse vazio entre nós e a utopia do que se deseja que seja, do que se almeja que se tenha.
É nesse campo aberto que as coisas que não são, podem passar a a ser. No Vale do Capão ainda existem muitos desses espaços. Ainda que o monstro de garras grandes da ganância que aparece no segundo ato assustando a poesia pra longe já tenha feito morada por aqui. Como na peça, a poesia resiste firme, com o apoio dos moradores que prezam e necessitam dela na sua missão entre os homens: dar sentido, arte, sensibilidade e boniteza ao mundo. Já o padroeiro São Sebastião foi morto por querer que todos vivessem como irmãos. Um sonho com certeza que muitos ainda desejam. Por aqui, somos muitos!
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