Mulheres Mad Max
- Milena Velloso
- 6 de nov. de 2015
- 3 min de leitura

Há duas semanas uma mutidão de mulheres ocupou a área externa do teatro Municipal do Rio de Janeiro em um ato de afirmação de gênero e causa, elas reinvindicavam o direito ao seu próprio corpo. Frases como : " a escolha é nossa", "fora Cunha" deram o tom ao protesto. No dia I2 de agosto ocorreu a Marcha das Margaridas , assim intitutlada em homenagem à Margarida Maria Alves, presidente do Sindicato dos Trabalhadores Rurais de Alagoa Grande, na Paraíba. Ela foi assassinada nessa data em 1983, a mando de latifundiários da região. Por mais de dez anos à frente do sindicato, Margarida lutou pelo fim da violência no campo, por direitos trabalhistas como respeito aos horários de trabalho, carteira assinada, 13º salário, férias remuneradas. Margarida dizia que “É melhor morrer na luta do que morrer de fome. As margaridas ocuparam Brasília, na maior mobilização de mulheres da América Latina. Elas e as mulheres do Municipal desejam a mesma coisa: mudanças nas nossas leis e garantias dignas de vida. Mudanças essas que tardam mais a chegar para as mulheres, como para todas as outras minorias no nosso país.

Há tempos venho ensaiando escrever esse texto, o seu título faz uma alusão ao filme de mesmo nome estrelado pela belíssima Tina Turner, vestida de couro em meio a um deserto do fim do mundo, lutando pela água, fonte da vida. Talvez a demora se justifique pelo meu pequeno auto-exílio na barraca nos primeiros meses. A ruptura com a vida antiga estava custando-me tanto que não podia ter o menor contato com nada que me lembrasse as comodidades e facilidades de outrora. O aqui e o agora do início era rústico, duro e desafiador e era preciso fazer essa travessia da forma mais recôndita possível. Eu era à época uma hermafrodita, ou pelo menos assim me sentia.
Nas poucas vezes que saia da toca, encontrava essa tribo de motoqueiras a la Tina Turner, indo e vindo no Vale. Elas eram velozes e corajosas, e eu ali paralizada, só medo. Na verdade, as mulheres Mad Max estavam em todos os lugares: no livro de cabeceira da época, Mulheres que correm com os Lobos; no mercado, no circo... Hoje, assitindo aquelas mulheres do teatro municipal, me senti obrigada pela minha coondição de gênero a falar um pouco sobre as tigresas de unhas negras e íris cor de mel , habitantes desse Vale feminino e lugar de nascer e se tornar mulher.
As mulheres daqui e as de "lás" têm muito em comum: conhecem a força que trazem no seu ventre, são viajantes desse mundo, correm para cima e para baixo nas motos, a pé, com suas crias amarradas ao corpo , lutando para se manter em pé e se movimentando. Assumiram o preço das suas escolhas há tempos e caminham em suas comunidades e irmandades encontrando em seus pares o acolhimento e parceria para seguirem seus caminhos, por vezes doce, mas também amargo. Não têm medo do seu sexo, nem de sua sexualidade latente, seu chacra básico pulsa e intimida as mais desavisadas: aqui é território selvagem, cuidado ao entrar. Não são feitas de chapinha, saltos ou manicures, seu mateiral é a seiva do ventre, as matas verdes, os caminhos não percorridos. Andam em bandos, formam uma matilha e não temem a vida, suas perdas e danos.

Assim chegam aos montes e assustam por vezes, tamanha assertividade e afirmação. Poderiam facilmente ter saído de um poema de José Regio. Cântico Negro seria o mais adequado, pois elas têm a loucura, enquanto os outros têm caminhos, trabalhos e papéis a cumprir.
No fundo somos todas Mulheres Mad Max. Se nos acostumamos com as vulgaridades e papéís sociais que foram pensados para nós e nos deixamos levar levianamente por essas bobagens, um chamado das ruas, das matas ou do nosso próprio ventre nos convida a retornar para o nosso bando, a nossa matilha. O corpo é nosso, faremos dele o que bem quisermos, mas primeiro haveremos de nos tornarmos mulher.
Eduardo Galeano disse que os homens têm medo das mulheres que não têm medo dos homens. Não tenho medo dos homens, nasci mulher, tenho seios, sexo e ventre . Só enxergo o mundo como mulher, mas estou apenas começando esse segundo momento de me tornar mulher, por enquanto ainda engatinho, por vezes arrisco me sustentar em pé sozinha e ainda caio bastante. A moto? Ainda vou comprar.