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É vatapá, é caruru, é o fim do caminho.

  • Milena Velloso
  • 28 de set. de 2015
  • 3 min de leitura

Ontem, 27 de setembro, foi dia de Cosme e Damião. O Vale inteiro serviu o famoso caruru dos gêmeos. Muitas festas, balas, alegrias e crianças enlouquecidas com as balas que eram distribuídas em toda parte. Açúcar, açúcar, açúcar. Nana chegou em casa com a mão cheia: pirulito, chicletes, balas e as histórias de como, onde e quanto essa iguaria tão rara e escassa por aqui aparecia. O chá de abacaxi recém-preparado para digerir o dendê foi pras cucuias diante de um punhado de tranqueiras coloridas servidas como sobremesa. Se somássemos tudo deveria dar umas 2.000 calorias de puro açúcar, corantes e conservantes. Para que melhor refeição prum domingão quente danado de Cosme e Damião?

Saímos de um banho incrível na Represa das Rodas direto para a efervescência da Vila. Gente servindo, gente nas filas pra ser servido, gente sentada nas calçadas se deliciando com as iguarias, crianças brincando na rua, nada de trânsito e o silêncio das línguas cansadas: somente no sábado foram dois Carurus e ontem o dia oficial, nada menos que cinco banquetes oferecidos em diferentes pontos. O dia dos santos gêmeos passou, mas a comilança prossegue: sexta, dia 02, tem Caruru do GAP (Grupo ambiental de Palmeiras) e dia 08 o de Toni, ambos igualmente famosos e esperados.

A novidade é que como no Vale muitas pessoas são vegetarianas, aqui também são servidos carurus sem o tradicional xinxim de galinha, que são substituídos por tabule, macarrão, palmito de jaca temperado e salada de maionese, entre outras coisas gostosas, mas bastante estranhas ao que nos habituamos a chamar de Caruru em Salvador. Claro que sentamos também e provamos. E aprovamos, Nossa, que delícia o vatapá, estava uma coisa dos deuses. Já os pratos vegetarianos deixo pros vegetarianos, sou baiana da gema, caruru é caruru, vatapá é vatapá e palmito de jaca é pra coxinhas.

Na noite do mesmo dia dos gêmeos mais famosos do nosso sincretismo era anunciado o eclipse de uma super lua vermelha, canhota, petista, forte e farta. Como passáramos o dia inteiro sem energia, o espetáculo se anunciava ainda mais bonito, pois o Vale estaria todo às escuras. Em casa, acendemos nossas velas e aguardamos a lua avermelhar. Fiquei frustrada quando as 2 1:45, hora marcada para o início do eclipse, a nossa nobre senhorita lá estava, altiva, linda, mas ainda gorda e desfilando o véu branco de sempre. Arrisquei até pensar que por causa desses tempos estranhos que o STF do nefasto Gilmar Mendes tinha se aliado a outros mais sombrios ainda e impedido a lua de menstruar.

Que noite linda, o céu estava tão iluminado que conseguimos colher todo o tempero verde da sopa na horta do nosso quintal sem sequer precisar de lâmpada ou lanterna. Tudo estava claro, limpo e sereno, era possível enxergar com absoluta tranquilidade tudo à nossa volta. Logo depois, quando sombra da terra começou cobrir a lua como um manto, é que as estrelas brilharam mais forte e o branco foi dando lugar ao vermelho. Foi mais ou menos nesse instante que a energia voltou como se fosse um visitante que, de tão esperado durante todo o dia, acaba por se revelar absolutamente inconveniente por chegar tão tarde da noite.

Tarde demais para a energia elétrica, tarde demais pra mim, impedida de assistir o espetáculo do eclipse na íntegra porque o caruru e o vatapá me convidaram a uma limpeza compulsória não planejada.

A lua, no céu, enrubescia e tornava a alvescer de forma serena, tranquila, silenciosa. Aqui na terra, entre nós, ainda ecoam os gritos surdos, os paus e as pedras dos que resistem à evolução. Que bom que temos altares para celebrar os gêmeos e um punhado de erês para nos acompanhar nas noites e dias escuros que ainda teremos pela frente.


 
 
 

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