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Pardal no fio ouve o telefone, mas não dá um pio

  • Milena Velloso
  • 30 de jul. de 2015
  • 3 min de leitura

Uma imagem perfeita para explicar como o nosso telefone chegou: pelas árvores, em meio aos galhos, pássaros e muitas folhas pelo caminho.

Assim que chegamos, fomos perguntando aqui e ali sobre o funcionamento das coisas no Vale. Divergências à parte, os serviços de telefonia fixa e de internet eram unanimidades: todos falavam muito mal. Sabe essas coisas que na cidade você tem pelo menos duas opções de fornecedores que disputam entre si quem entrega mais rápido pelo menor preço? Pois é, por aqui a gente entra numa fila de espera e depois acende uma vela pra ser contemplado.

Já cientes dessa demora, solicitamos a instalação de telefone e de internet em casa antes de termos uma casa propriamente. Se chegassem antes do final da obra, ambos os serviçõs ficariam provisoriamente instalados na nossa cozinha, que na verdade era uma pia com fogão em cima de uma laje com cobertura de eternit mesmo. Como esperar nunca foi meu forte, montamos uma estratégia de guerrilha pra agilizar a instalação do telefone fixo, que consistia numa perseguição diária ao preposto da Oi, de prenome Alex, para quem fazíamos ligações diárias usando o celular – sim, um celular, que só funcionava no estacionamento do circo e nos fundos da Vila.

O cerco ao funcionário da Oi também consistia em perseguir seu carro pelas ruas do Vale. Bastava avistar o corsinha prateado e lá íamos nós abordar o coitado, compartilhando nossas dores e delícias, no intuito de sensibilizá-lo. Perseguindo o Corsa Prateado poderia bem ser uma refilmagem de algum filme B hollyoodiano, pela qualidade do script e das cenas rodadas. Essa desventura durou mais ou menos uns três meses, custou-nos inúmeras perseguiçõesos, algumas incursões à casa do Alex em Palmeiras, uns 3.000 telefonemas (entre súplicas agoniadas pro pobre coitado que dizia que nada poderia fazer enquanto a OI não enviasse a ordem de serviço) e queixas raivosas para OI que não se dignava a liberar o serviço. Até que num belo dia, bonito mesmo, ensolarado e céu límpido e azul, o que é raro por essas bandas, o grande pequeno Alex aparece lá na obra, munido de 200 metros de fio e plugs dizendo que o telefone estava instalado, e funcionando, ao que eu pergunto, mas como? Cadê o telefone? Ele diz: no poste, lá na rua. O poste não é o da frente da minha casa, nem a rua é a minha rua. É a Rua do Juca, a transversal, que fica a uns 200m da minha casa.

É para lá que Alex me leva e ali ele conecta o que parece ser um um gigantesco e antiquado gancho de telefone de onde, de fato ouvia-se o que parecia ser uma linha com sinal. Eu hum, e agora??? Ao que ele responde, muito fácil levar até sua casa, instala esse lado do fio aqui e sai desenrolando o resto (o resto, naturalmente, eram os 200m de fio que ele trazia enrolado) nas árvores mais altas. Paciente, Alex me alerta para os cuidados necessários com os galhos mais finos, pois com o vento eles podem atrapalhar e até romper o fio, me instrui a usar grampos de cerca para fixar o fio nos troncos e se despede, me garantindo que esse trabalho não levaria mais que “20 minutinhos”.

Eu acreditei e fiz exatamente como ele mandou. Esperei Lelo chegar e lá fomos nós: escada, fio, martelo e grampos de cerca.. Realizamos o trajeto que vai da rua até a casa, subindo e descendo na escada grampeando o fio do telefone em cada tronco de árvore grande que víamos... 40 minutos depois, talvez um pouco mais pra conectar o aparelo ao fio, já estávamos ligando para quase toda nossa agenda. Ligo pra casa de meus pais, ocupado. 5 minutos depois, atendem. Passo meu número e pela priemria vez ouço o toque do telefone em minha nova casa. Que barulhinho bom. E olha que Marisa Monte nem conhecia essa história quando compôs o álbum.


 
 
 

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