A Travessia
- Milena Velloso
- 19 de dez. de 2014
- 3 min de leitura
Na estrada enfrentamos nosso primeiro desafio: uma carreta de 30 metros na contramão nos tirou do caminho e nos empurrou mata a dentro levantado uma árvore com o nosso carro pela raiz: a porrada foi toda do lado esquerdo do carro, onde fica a cadeira da minha filha de três anos anos que estava calmamente dormindo antes do acidente. Engraçado que Lelo havia dito há 30 minutos que aquela viagem estava muito boa e rápida e chegaríamos logo. Saímos ilesos do acidente, a carreta passou e nem parou para ver o estrago que fez, outras e outros pararam e com muita solidariedade e cooperação conseguimos sair do mato com um carro arrebentado, um pneu arrancado e duas portas que não abriam por nada. Seguimos viagem para a borracharia mais próxima, consertamos o que deu e continuamos nosso caminho, todos vivos, graças a Deus e a Oxossi, orixá guerreiro das matas que nos carregou nos braços quando adentramos seu território sagrado.
Uma barraca, pia e banheiro com aquecedor a gás nos aguardavam ansiosos por seus donos por três anos e agora, enfim chegávamos com os três filhos, uma gato e três cachorros. Montamos barraca, fizemos cobertura pras noites de raios e tempestades, sim, tem isso aqui e montamos o que seria a nossa cozinha pelos próximos 4 meses e meio, no mínimo e a partir daí começamos a nossa aventura no vale.
O terreno, palco de toda essa empreitada, ficava ao lado do circo do Capão, um dos projetos culturais mais bonitos e por uma sorte trazida por três crianças amigas, acabamos nos tornando seus vizinhos. Desde a primeira vez que assitimos um espetáculo Cabaré da família nos apaixonamos e imediatamente veio um desejo quase infantil de tão impossível: porque não fui artista e vivi aqui? Assim , lá atrás ianda, o ano se não estou enganada foi 2006 .. só aconteceu nove anos depois: tempo, tempo, mano velho.. vem comigo...uns diriam que demoramos muito, alguns diriam demais e muitos , com certeza , diriam que nunca deveria ter sido.
Nos meses que se seguiriam todo dia era uma agonia e a única regra possível de ser seguida: resolver cada dia no seu dia. Planejamentos e planilhas com certeza teriam ajudado muito e evitado alguns percalços evitáveis e com certeza muitos assim teriam feito, mas infelizmente nunca conseguimos essa proeza de nos preparar devidamente para nada, eu e meu companheiro temos diferentes qualidades, mas os mesmos defeitos: somos o arquétipo do louco da carta do tarot, simplesmente fazemos quando o coração assim pede, depois e muitas vezes, nem depois , pensamos em como deveria ter sido feito . Por isso nossas partidas e chegadas são mais agoniadas e sofridas, a vida nesse nosso sistema pune severamente quem assim, como louco, escolhe viver. Para esse mundo , desses tempos é preciso estudar, ensaiar, se preparar, e só depois então, orçamentos, possibilidades memorizadas sair e ir ver e viver.
Assumindo mais ou menos todo esse risco dos loucos, inciamos com nossa trupe de sete nossa travessia Guimaraneana , logo depois ganhamos mais alguns nobres membros: dois sapos e um cachorro nômade que passava alguns dias conosco e logo depois partia para outras moradas, mas nunca se demorava muito e lá estava sorriso, sim, ele sorria, mostrava todos os dentes e isso nos cativou e nos dias que ele retornava, geralmente na madrugada, o acolhiamos como se faz com um antigo amigo, esperando que o Vale assim nos acolhesse também.
